
[1948] Nº 5, Jackson Pollock
A propósito do post de ontem, recebi um comentário que merece um post de resposta.
Sabia que, mais cedo ou mais tarde, esta questão iria ser colocada - e ainda bem -, e com um excelente exemplo: Jackson Pollock.
Dada a questão levantada, não poderei apenas falar na relação entre desenho e pintura no seu trabalho sem falar um pouco no seu percurso. Pollock teve formação académica e produziu vários trabalhos influenciados pelos ensinamentos tradicionalistas dos seus mestres, desde figurar animais e pessoas. Ao viver numa época peculiar - 2ª Grande Guerra, Surrealismo -, tal originou a que se começasse a interessar por novos modos de representação, recebendo grande influência de Miró e adquirindo especial interesse pela pintura muralista. O facto de, em determinada altura da sua vida, ter tratado uma depressão através de psicanálise jungiana, tal abriu-lhe portas para uma nova dimensão da percepção humana: a do eu enérgico e em constante movimento. A realidade por ele percepcionada a partir desse momento tornou-se no reflexo dessa energia interior, desse movimento sem espaço nem tempo. Daí o gesto, o imediato.
Para chegar a este novo ver, é claro que Pollock tinha de saber desenhar: o desenho não passa por apenas "ter jeito" (técnica) - é acima de tudo e antes da representação, uma construção mental. Há que perceber a forma, a estrutura, a relação entre as partes, o seu mais ínfimo pormenor - a essência - para saber transpor a realidade exterior de onde a representação teve origem. Ao partir desta realidade que o envolvia, Pollock desconstruiu-a e revelou-a como reflexo do eu humano em constante mutação, no espaço e no tempo - sem história.
Sem dúvida que por isto Pollock era um exímio desenhador, não apenas pelo seu percurso mas pela forma como transpos a imagem, através da pintura. Desenho, pintura e a mente humana andam de mãos dadas - é o eu na sua totalidade que comanda a mão. O real, nisto tudo, está mais em nós do que lá fora, porque nós é que o apreendemos e lhe damos uma multiplicidade de leituras. Tudo o que nos rodeia é, assim, falso e etéreo: a realidade está no eu e na forma como concebemos e representamos o mundo.
Tenho que assim expressar um grito de revolta perante a arte sem conteúdo, pobre e exterior. Numa sociedade onde a imagem fugaz e falsa impera aliada à palavra vazia - daí tantos maus "artistas" e outras coisas mais - o ser humano está cada vez mais longe da verdade de si mesmo - it isn't out there... but here.
Espero que o discurso não tenha sido demasiado... Esóterico. Não sou chanfrada :D
Resposta às cuestiones... Com um Obrigada.
2 comentários:
gostei muito do texto. obrigado pelo esclarecimento ;) pá, e como sugestão para um próximo texto, que tal a relação entre a pintura/desenho e a fotografia... ;)
beijo!
... Quando eu pintar/desenhar uma fotografia tua... ;)
Beijo!
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