segunda-feira, 30 de março de 2009

Couzas que tal

Item encomendamos mesmo ao Reverendo Parocho desta/ Igreja tenha grande cuidado se as Ermidas, que/ estão no lemite desta freguezia, estão decentes, e com/ boas portas, e se se fechão, e abrem só nas occazi=/oens, em que os devotos se querem encomendar a Deoz,/ e se se tornão a fechar, e em nenhuã forma consinta/ que estejão abertas sempre, nem sem portas; e quando/ as pessoas, que tem obrigação de terem as ditas Ermidas/ decentes, e as portas fechadas o não fizerem como deixa=/mos advertido; o Reverendo Parocho sob pena de excomunhão/ mayor isso facto incorrenda de Conta ao nosso Reverendo/ Arcipreste a quem damos poder, e jurisdição, para que Logo/ mande com as penas, que lhe parecer, tapar as portas da/ tal Ermida de pedra, e cal, para que se não uze della enquanto/ se não põem decente, e haja mais vigilância em se/ fecharem as ditas portas; o que observarão, porque he menor/ o incoveniente de se executar assim, do que se fazerem/ nas ditas Ermidas alguãz couzas indecentes, como com/ grande magoa nos tem chegado à noticia.


Deixo-vos com a imaginação entregue às "couzas indecentes". Até breve.

domingo, 29 de março de 2009

Três

O JARDIM

Há tanto tempo que não me ocupo do jardim
A última vez estava frondoso
A buganvília a tingir-se de vermelho
Trepando O perfume inebriante
E as festas ao cair da tarde
Parece que foram há séculos
Noutra encarnação
Os meus amigos traziam as bebidas
E a jovialidade
O jardim enchia-se de gente
De beijos
Pelos cantos Sôfregos de desejo

Inventávamos planos de rebelião
Sonhos de transmutação
Passávamos horas a inventar
Entre duas carícias
Surgiam ideias puras e inocentes
Como a nossa vontade de tudo abarcar
Era um frenesim constante
Faz-me pena agora
Olhar para ele
Para as suas sebes abandonadas
De ramos retorcidos
Jaz tombada a grande epícea
E uma enorme cratera
Substitui os belos canteiros de outrora

Há tanto tempo que não me ocupo do jardim

A última vez estava frondoso
A buganvília a tingir-se de vermelho
Trepando O perfume inebriante
E as festas ao cair da tarde
Parece que foram há séculos
Noutra encarnação


[Adolfo Luxúria Canibal / António Rafael]


Faltam 3 dias.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Zombie

Os espaços brancos e vazios assustam-me.

Estou aqui há cerca de meia hora e nada, mas rigorosamente nada, me vem à mente. A não ser uma sensação irracional de cansaço, que vem lá do fundo, aquele fundo a que alguns chamam de inconsciente.

Apenas algumas noites mal dormidas.

domingo, 22 de março de 2009

Impermeáveis

A minha melhor amiga está triste... E como não posso deixar que tal se prolongue, dei por mim a magicar uma forma de minorar a dita tristeza.

Recordei os nossos tempos áureos de adolescente e aquele dia em que fomos ver as Raincoats ao vivo, no Teatro-Cine: memorável! A noite iniciada com a tal cerveja aromatizada e terminada a dormir no degrau de uma porta... Anos se passaram, mas a amizade - aquela muito grande - está por aqui, impermeável à acção do tempo e do espaço. Sempre.

Especialmente para ti gaija - e para todas as outras gaijas que visitam o estaminé - um hino ao mulherio: The Raincoats, "Pretty".





You're so pretty!

sexta-feira, 20 de março de 2009

Café-in

Hoje dormi mal.

Quando se passa a barreira dos 30, sente-se - inevitavelmente, acho - um amadurecimento salutar de alguns neurónios. O pior passa-se quando certas lagartas decidem esmifrar algumas das células de qualidade. Hoje o fruto está podre.

Uma situação que já nem o café resolve.


quarta-feira, 18 de março de 2009

Crónicas do raio que me parta - Episódio 4




Hoje sinto-me no limite das minhas capacidades. Logo pela manhã.

Não se trata de um indicador depressivo a pairar algures por aqui: trata-se de cansaço. Mental.
Há quatro dias que não faço outra coisa senão dar entrada de livros de uma biblioteca conventual e organizá-los por nome, tomo, número e local. Já consegui arrumar umas centenas, mas o número final ronda os milhares.

Acordei a pensar se tal esforço hercúleo valerá a pena: não pretendo ficar na e para a História, mas neste país mesquinho, gerido por favores em cadeia, cuja herança lobbyniana passa de pais para filhos, estudar papéis velhos e borolentos não é considerado nas estatísticas do progresso. Ainda mais quando tal é levado a cabo por um(a) zé ninguém, o tal que faz parte do povinho que apenas se tem em conta na mesa de voto.

Ser pintora é uma profissão assaz egoísta e, paradoxalmente, extremamente altruísta. Mas mesmo assim, se não pertencer a uma qualquer elite, não valerá de muito egoísmos exacerbados ou altruísmos compassivos pois não há salvação possível: remeto-me a ser mais uma peintresse maudite. No entanto - e embora alguém me tenha dito um dia que uma licenciatura em pintura não era profissão: "gajos que não fazem nada" -, tento, algures no limiar da vontade levar, qual timoneiro, objectivos avante. Mas é com muita tristeza que assisto a uma crise que, antes de tudo o mais, se revela na pessoa, na moral, na ética. E que já não passa apenas pela nomenclatura de um ofício, ou pela Vontade schopenhaueriana.

O português - ainda de papo cheio com a História que antepassados construiram - pensa-se um povo eleito por uma qualquer entidade desconhecida, capaz de ir alterar, a seu belo prazer e dos amigos, o curso da situação. Temos um PM (para mim um Play-Man), que os lacaios chamam "menino de ouro" cá do burgo - falta-lhe o incenso e a mirra - que tem cometido - e dito - asneira atrás de asneira, comprovando que ser-se energúmeno está on the top. E que não mais se tem revelado que o reflexo de um país onde, antes de faltar o dinheiro, se carece de noções e sentimentos de humildade. Humildade, meus senhores. O português que julga ter opinião para todos os tipos de questões - existenciais ou não -, o tal que vive constantemente com o pé no limiar da argola. Nós.

Foi nesta falta que tudo começou: local e global, que se arrasta há muito. A fome de valores já se começa a sentir no corpo, e enquanto o estômago encolhe aumenta a vergonha... Do Zé Povo, os tais peões que fazem a máquina mexer. A fome do espírito disfarça-se, entre pó de arroz, gravata e palavras dignas de grego, agora a fome do corpo traz consigo a visão da decadência.

Teimosamente, vou voltar às minhas listas. E ilustrar este meu post com o ícone do Bordalo Pinheiro, aquele que nos vai guiar - de mangas arregaçadas e por fim - à Jerusalém Celeste, à tal do vinho e do mel.

terça-feira, 17 de março de 2009

Uns




Dois bilhetinhos que me vão fazer muito feliz, é certo. And they're mine!

... Com IVA a 5%.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Desordem

Uma canção hoje cantada até à exaustão: "Disorder", da Joy Division, do álbum Unknown Pleasures de 1979: vídeo montado por alguém bem-aventurado, com imagens do grande filme "2001 - Odisseia no Espaço", de Stanley Kubrick.




I've got the spirit, but lose the feeling.


domingo, 15 de março de 2009

Eco



Finalmente meu.

Depois de anos - anos, mesmo - numa procura que roçou o desespero, finalmente uma reedição. Um livro essencial que se encontrava esgotado há demasiado tempo, e para mim uma verdadeira bíblia.

Nutro uma admiração enorme pelo autor, paixão essa que se iniciou com "Arte e Beleza na Estética Medieval", passando pelo "Nome da Rosa", "A Ilha do Dia Antes", "Kant e o Ornitorrinco", e o fabuloso mon preferée "Baudolino", entre todos os outros. Sabe o que escreve e como. Sabe do que fala. Com clareza e espírito sagaz e imaginativo. A "Obra Aberta" demonstra-o mais uma vez: um conjunto de ensaios onde a obra é analisada como criação resultante da dicotomia Caos/Ordem, numa envolvência estética actual que nos permite uma nova definição do mundo, este novo mundo em constante mutação que viaja - como um átomo - entre os contrários.

Mesmo para os leigos, aconselho. Antes que se esgote outra vez.


sexta-feira, 13 de março de 2009

Velvet Undertaker

"Closer", de Anton Corbjin.



Ainda não tinha visto este filme por receio. Por medo da desilusão. A personagem e a pessoa Ian Curtis acompanham-me desde a adolescência, e revejo-me - sempre - em todas as palavras que ele escreveu. Um filme... Não passa de imagens recortadas que não conseguem definir uma existência, todo um sentir que vivia enclausurado num corpo, num espaço hermético, afinal um objecto.

"Touching from a distance" foi um dos primeiros livros da minha biblioteca. Já foi lido e relido milhentas vezes. Não julgo que o filme faça jus ao livro: o Ian que snifava cola, a personalidade esquizóide, a admiração doentia por David Bowie e pelos Velvet Underground, a tendência incontrolável para a melancolia, a escrita. A criança grande que apenas queria um momento no tempo.

Julgo que o filme sobrevalorizou a personagem Annik e foi vago em tudo o resto, pois não foi a ambivalência do amor a principal razão que levou Ian ao suícidio: ele tinha perdido o controle do eu, entre mulheres, público, doença, filha, fama... E ele mesmo. Tive grande pena que um momento emblemático - uma foto que o Ian tirou com a filha pouco tempo antes de morrer - não fosse retratado, tendo sido preterido a outros, como aquele em que Ian vai trabalhar com a palavra Hate escrita no casaco.

No entanto, não vou estar com críticas. Este filme é um relato resumido para quem não conhece - ou conhece pouco - quem foi Ian Curtis e a Joy Division. Mas é preciso muito mais que um filme... É preciso sentir da mesma forma.


Foi, é e será um dos meus anjos da guarda.


When you're looking at life,
In a strange new room,
Maybe drowning soon,
Is this the start of it all?
Turn on your TV,
Turn down your pulse,
Turn away from it all,
It's all getting too much.

When you're looking at life,
Deciphering scars,
Just who fooled who,
Sit still in their cars,
The lights look bright,
When you reach outside,
Time for one last ride,
Before the end of it all.

["Exercise One", 1978]

quarta-feira, 11 de março de 2009

silêncio

Tenho de fazer uma pausa, está decidido.

Antes que comecem a indagar o que será feito de mim, vim com "a casa às costas": pc e net portátil. E estou a fazer agora uso dela – depois de horas a fio calada, acompanhada pela melodia surda do projector de microfilmes, e rodeada de estudiosos de meia-idade. Ainda bem que fiquei ao lado de um projector avariado… A mesa é toda minha.

Estou cansada, doem-me os olhos. Estou há horas a decifrar a caligrafia hieróglifica de um padre (malandro…) do século XVIII, e só vou a meio do texto. Um testamento que até agora só encomenda missas, a garantia de uma boa vida no Além: quase que sou levada a concluir que se trabalhava uma vida inteira para missas - a verdadeira existência estava do lado de lá.

Nada mais tenho a dizer: a fazer muito, seguindo o exemplo dos meus colegas seniores de sala. Mas estou por aqui. Pacientemente silenciosa.

domingo, 8 de março de 2009

Untitled

"Depois do amor à vida, o sexo é a maior e mais activa força e ocupa quase todas as vontades e pensamentos da porção mais jovem da humanidade. Ele é a meta final de praticamente todos os esforços humanos. Exerce uma influência desfavorável nos assuntos mais importantes, interrompe a todo o momento as ocupações mais sérias e às vezes inquieta por algum tempo as maiores mentes humanas (...) o sexo é realmente o alvo invisível de toda a acção e conduta e surge em todo o lado, apesar dos panos que lhe são atirados para cima. Motivo de guerra e objecto da paz, (...) fonte inesgotável da razão, chave de todas as insinuações e razão de ser de todas as pistas misteriosas, de todas as ofertas silenciosas e olhares roubados, é nele que pensam os jovens e, com frequência, os velhos também; no que pensam os impúdicos a todo o momento e a fantasia recorrente e constante dos castos, mesmo contra a sua vontade.

Se considerarmos tudo isso, somos levados a perguntar: porquê tanto barulho e tanta confusão? Porquê tanta pressa, tanto tumulto, angústia e empenho. Trata-se apenas de cada Manuel encontrar a sua Maria. Porque é que tal ninharia é tão importante e costuma trazer tantos distúrbios e tanta confusão à vida do homem?"

Arthur Schopenhauer.


Quarenta anos antes do nascimento de Freud, este filósofo lançava - sem saber - a pedra que iria ser a base da Psicanálise.

Ao meu très grand ami Capelão agradeço o clique que me fez tirar o pó dos livros de Schopenhauer.

sábado, 7 de março de 2009

Auto-de-fé

Hoje uma notícia pôs-me fora de mim. O assunto ainda martela na minha cabeça.

No Brasil, uma menina de nove anos foi abusada sexualmente pelo padrasto e ficou grávida... De gémeos. Internada no hospital devido a complicações, e em perigo de vida - pela estrutura física de criança -, decidiram os médicos provocar o aborto. O Rev. Arcebispo de Recife, ao ter conhecimento da situação, decidiu excomungar... Os médicos e a menina.

Como católica que sou e não hipócrita, reconheço que a estrutura Igreja vai de mal a pior. Criada e mantida por homens, cada vez mais se revela como um esquema que tenta manipular, à viva força, as massas - e como o tem feito sabiamente ao longo dos séculos. A mensagem que Cristo transmitiu um dia - de Amor - já pouco ou nada interessa num sistema cada vez mais politizado, viciado de interesses. Não fecho os olhos: fui educada nesta religião, e num momento da minha vida pensei seriamente em optar pelo budismo. Mas depois de muito ler e repensar, concluí que seria uma opção para um modus vivendi demasiado passivo perante uma necessária e urgente actuação de mudança. E a atitude de Cristo perante a existência agrada-me... As manipulações que os homens fizeram à História é que não.

Uma criança! Como é que uma criança pode ser excomungada? Inocente? E o filho da dita que lhe fez mal, esse não? O Rev. Arcebispo alegou - e muito burramente - que crime maior seria o aborto que o abuso, aos olhos de Deus... Onde é que Deus manifestou isso? E quando é que deixam de usar o Deus como O meio para atingir os fins? Onde está o poder de excomungar, sendo isto sinónimo, segundo as leis da Igreja, de condenação eterna? Quem julga afinal: o homem ou Deus?

Com alicerces podres como este, a Pedra lançada um dia não resistirá: "quem não tiver que se lhe aponte, que atire a primeira pedra" - foi Cristo que disse, não? Com o tema da pedofília ainda tão recente e latente, que tal a Igreja se calar e deixar de usar o nome de Deus em vão?

Fomos crianças um dia... E quer queiramos quer não, algumas experiências da infância marcam-nos para a vida. Aos nove anos eu brincava com bonecas. Aos nove anos uma criança - mais uma - foi abusada e ficou grávida. Como reagirá ela, amanhã?
Eu sei como reagiria: o filho da dita empalado pelo dito em praça pública e o Rev. Arcebispo agarrado ao pau, a suportar o peso da vergonha, qual auto-de-fé.

O homem, quando quer ser Deus... É ridículo.



sexta-feira, 6 de março de 2009

Prize!




O meu segundo "selinho", desta vez um prémio. Oferecido pelo Cantinho da Bê e respectiva proprietária, da qual transcrevo as palavras:

"Mnemosine (pela boa escrita e desenhos maravilhosos);"

Que mais posso dizer...? Fiquei emocionada, pois fiquei!...

segunda-feira, 2 de março de 2009

Back to the jungle!

Pronto! Assumo! Devido ao post de ontem dei por mim de retorno à selva: "Tarzan Boy", dos Baltimora, um hit da minha infância.




Agora ficam entregues por uns dias a este selvagem, que eu vou tratar da minha erudição.


P.S.: Ainda hoje acho esta canção um must...


domingo, 1 de março de 2009

Pet

Este comentário que hoje por aqui me deixaram merece um post...

"Axo k falas um pouco de mais de ti :-) e se não és uma figura publica axo isso completamente desinteressante. este bloog sofre de narcisismo excessivo."


... E, consequentemente, o meu comentário:

Pois bem, o Tarzan - ou Jane, whatever - está de volta. Como alguém me disse ainda há pouco, todos nós temos um anónimo de estimação. Mas, para este nível, acho que não seria pedir muito que me aparecesse um que soubesse escrever correctamente português, e que escrevesse algo que eu pudesse realmente argumentar... Mas não: autêntico disparate.
Desconhecia completamente que existem pessoas para as quais apenas as figuras públicas são compreendidas como interessantes: reina uma verdadeira asnocracia. Para quem um blogue pode ser entendido como bloog, tal pérola é complementada com o narcisismo... Do qual se dispensa, em bom português, o excessivo. Aconselha-se o dicionário.


Elsa Raposo, pode ser? Vá e não volte.