terça-feira, 27 de outubro de 2009



E porque os livros são, para mim, como o ar que respiro, eis que o meu mano mais velho - de tempos em tempos, lá se vai lembrando desta minha dependência - me presenteou hoje com este livrinho ainda fresquinho nos escaparates (e não, não vou ler apenas para fazer pirraça ao Saramago: o Lobo Antunes é dos poucos autores portugueses que aprecio). Portanto, os próximos dias já não se vislumbram tão boooring (eu sei... Raios me partam, que ainda hoje a mãezinha me perguntou quando volto a pegar nos pincéis...).

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Versus

Hoje recebi mais um email acerca da pseudo-polémica gerada à volta da Maitê Proença. E recebi um outro, da Livraria Bertrand, a divulgar o livro do autor contemplado com o prémio da Fundação Saramago. Ambos originaram por aqui um dilema: será que vale a pena pensar acerca disto? E o um-dó-li-tá irá contemplar qual?

Saramago. E porquê? Dado o debate de hoje tão divulgado e o assunto já tão esmiúçado pelos media - há que alimentar os sensacionalismos deste nosso pequeno rectângulo, como a Judite de Sousa bem provou ontem -, gostaria de deixar uma singela opinião acerca do homem... Porque, afinal, ele com o que profere limita-se a ser mais um. A Maitê apenas se limitou a fazer o que nós, vergonhosamente, deixamos fazer.

Não vou criticar o Saramago. Nem me interessa, assim como não me interessa nem me preenche o que ele escreve. Alguns defendem que o senhor escreve mal - o que não deixa de ser algo verdadeiro -, mas tal revela-se tão válido como alguns blogues que teimam em existir por aí, que fazem uso de um português tão mau que me faz perguntar se será ainda a língua-mãe ensinada nas escolas, ou um dialecto extraterrestre qualquer, de uma civilização atrasada anos-luz.

O grande acontecimento aqui foi que o senhor ganhou, há uns anos, o Nobel. Recordo-me disso. Recordo-me também que, antes de tal feito, era o senhor mui mal amado pelas hostes, não apenas pelo facto de professar o comunismo como também pelas afirmações anti-católicas que fazia. Mas veio o Nobel, e foi um ver se te avias a comprar livros do Saramago, passear livros do Saramago, comer livros do Saramago. Até agora nada de especial, pois esta atitude é típica do português, ávido por alguns laivos de orgulho... Volta o Saramago de vez em quando a dar o ar da sua graça, e voltam com ele as suas frases já feitas, mormente ligadas à Igreja Católica, com livros em que aborda temáticas católicas. Nada de novo.

Não me incomoda a atitude niilista do senhor: incomoda-me sim a aspereza de ser que nele sempre existiu. Não me incomoda ele ser comunista, incomoda-me ele fazer tábua rasa do facto das pessoas necessitarem de acreditar. A Bíblia - que foi um dos meus principais manuais de estudo nos últimos meses - é, acima de tudo, um livro histórico, escrito por pessoas como ele, inseridas apenas num espaço e num tempo diferentes. Como tudo na existência humana, se o Deus da Bíblia é cruel como refere, nada mais é que a ideia que o homem de então fazia de Deus - porque Deus é, acima de tudo, a ideia que o homem faz do estado que o transcende, à sua imagem e semelhança: faço uma ideia de Deus - o Sem-Nome - porque nunca o vi, nunca o materializei visualmente; mas transporto-o para uma realidade que me é reconhecível, a humana. Torno-o humano como eu, aproximando-o - cruelmente bom. Era assim que pensava o homem da altura. Gostaria mesmo de ver o Sr. Saramago a explicar, como tão bem sabe - ou pensa - fazer, a sua visão limitada da existência humana a um homem que entendia a sua realidade como uma constante teofania: seria apedrejado em praça pública até à morte, claro está.

Pode criticar sim a Igreja Católica enquanto instituição que é, formada por homens que não deixam de ser iguais a ele. Sabido é que a Igreja cometeu várias atrocidades ao longo da História, mas também não deixa de ser verdade que foram os homens que as cometeram. Homens como o Saramago. Quem é ele para criticar o comportamento dos semelhantes, quando ele apenas se limita a corrobar, pelas suas palavras, as suas atitudes? É que Deus, materializado ou não, nada tem a ver com isto, pois é a Ideia... A Bíblia, antes de ser a Palavra que os homens determinaram, é História vista pelos olhos de um ser humano que procurava uma razão de e para existir. E isto, conceito simples, ainda não é compreendido, e muito menos sabido, por muita gente, que por aí opinam no total vazio de conhecimento.

O que realmente me incomoda, no Sr. Saramago, é olhá-lo e ver ali uma pessoa que, após viver toda uma vida, ainda não conseguiu compreender que a existência humana é feita de todo um conjunto variado de facetas, de seres. Que na sua pluralidade merecem - e devem - ser respeitados e compreendidos. O que me incomoda é ver ali uma pessoa que viveu toda uma vida fechada sobre si mesma. E penso: eu não quero ser assim. Absolutamente.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Mon petit prince

O João Cacelas, no post fresquinho de hoje, abordou uma temática que julgo bastante em voga nos dias que vivemos: o tema do príncipe encantado.
Tomo a liberdade de lhe rapinar descaradamente o assunto, até porque o julgo também merecedor de um post meu. E eu sei que o João não se chateia.

Acredito tanto nos príncipes encantados como acredito em bruxas: que os há, há. No entanto, cada vez mais percepciono que este é um conceito apenas ligado ao mundo das ideias, irreal, dada a ausência gritante de valores básicos que se assiste por aí. Afirmo-o porque nem só de cavalos brancos e de rosas vermelhas vive o imaginário, pelo menos o meu, e muito menos a minha realidade. E torno-o a afirmar quando tomo contacto com a notória deturpação do real de grande parte da juventude de hoje (e eu ainda sou uma jovem...).

Para provar o fenómeno, basta visitar umas quantas páginas dessa maravilha social que é o hi5: ora, ora, qual Mercado do Bulhão temos uma infinidade de perfis com estrelinhas e coraçõezinhos que iluminam o olhar de qualquer descrente, complementados por comentários do si e para si simplesmente maravilhosos, de provocar inveja a qualquer vendedora de um bom peixe fresquinho. Não estou a ser sarcástica... Ok, um bocadinho, mas na realidade tais pequenas coisas entristecem-me, até porque revelam algo de muito mais profundo que, a longo prazo, irá alterar ainda mais uma sociedade cada vez mais descaracterizada, e virtualmente desumana.

Não estou a condenar, atenção, quem se assume como romântico, whatever. Tudo é saudável, com peso e medida. Chamo a atenção principalmente para a deturpação que os jovens de hoje fazem da ideia, do sentimento de Amor: sexo, muito sexo, algo notório na faixa etária 20-30, ou seja, pré-adultos e adultos, sem distinção de género. Hoje tudo se rege pelo princípio de prazer: enquanto me puderes aprazeirar, amo-te; se não, muitas outras que servirão para o mesmo propósito andam por aí (o vice-versa aqui também se aplica) - usa o meu amor, enquanto eu gostar é a frase de ordem. Tal padrão comportamental origina, claro está, personalidades instáveis e limitadas, que deambulam entre o acto e o conceito e que muito dificilmente saberão lidar quando a verdadeira pessoa lhes bate à porta - da qual, claro está, fugirão a sete pés. porque no imaginário apenas existe le plaisir. Enquanto é esta necessidade de prazer pelo outro alimentada sentem-se felizes e realizados... Mas que triste felicidade esta: sem encanto algum, e puramente egoísta - o ser humano como objecto alheio de masturbação.

Hoje fico-me por aqui... Um dia destes haverá mais.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

H... Qualquer coisa.

Pois.

Execrável esta minha atitude de não responder aos comentários do post anterior. Má, muito má mesmo. Mas, como tudo na vida, tal teve uma razão. Válida.

Um vírus manhoso decidiu instalar-se por aqui. Já andava a dar o ar da sua graça há uns tempos, mas eu teimosamente deixava-o remexer nas minhas coisitas, a seu bel-prazer (também com a cabeça ocupada como a tinha, queria eu lá saber se ele estava decidido a esmifrar a minha caixa de pandora... Umas tais de Pinturas e Emblemas eram bem mais importantes!).

Com o assunto arrumado, nos últimos três dias deu-se por aqui uma batalha verdadeiramente apocalíptica ... De deixar o S. João a querer uma igual. Desde arrancar cabelos, fazer caretas, desatar à unhada e à dentada (as minhas especialidades), tudo valeu para enxotar o bicho. Inclusive umas macumbas bem ao jeito do bruxo do Ronaldo - sem sangue, que eu tenho muito amor às minhas galinhas. Mas tive mesmo de recorrer à medicina convencional e aplicar a vacina adequada, visto que a maleita era feroz. E feliz que estou - qual Arcanjo Gabriel, bem suado após uma batalha nada fácil com o Belzebu - que sozinha dei a volta ao bicho! E ei-lo que jaz, a arfar, sem nada poder fazer contra tamanha sagacidade e sabedoria!

E não... O bicho não veio de lugares menos próprios. Veio de um um outro congénere, onde meti a minha portadeira - vulgo pen -, que depois meti no meu... Como tudo na vida, há que ter muito cuidado com o buraco no qual metemos o que é nosso. Embora convenha ter sempre a portadeira à mão, há que pensar duas vezes... Ok, dez.

domingo, 18 de outubro de 2009

Memento

De volta.

Confesso que esta paragem me fez bem. Out, à procura e ao encontro do que realmente me interessa. Não é que a blogosfera não tenha o seu interesse, mas tal revela-se, afinal, o reflexo do que anda por aí: pessoas muito ou nada atrofiantes, ou q.b.

As pessoas... Por aqui e por vezes são chatas. A sério. Não pretendo ferir susceptibilidades, mas tornam-se chatas, terrivelmente pink and boring. Contam tudo a todos, partilham sensações, momentos, que se tornam triviais não apenas pela forma como são expostos, mas também pela forma como são comentados (Oh, como concordo!; Oh, sou como tu, vê lá!; Oh, eu também já fiz isso! (...)) - o quanto eu defendo que a palavra é elemento castrante, e quanta mentira paira por aí. Tenho plena consciência de, ao dizer isto, estar a pôr la tête sur la guilhotine, mas não quero saber. Tenho de o dizer, pique-se quem quiser. Mas, como reflexo do que hoje se assiste... Nauseada: eis como fico.

Ah! Pensam alguns: Padece de problemas psicológicos! É um bicho social! Traumatizada, coitada! E pensam outros: Não fala de roupas nem dos amores, está doente, só pode! Ui! Falta de homem... - Pois bem... E mais uma vez quero eu lá saber. E digo-o com a calma que me é característica. Uma entre os demais, porque não limito a minha vida ao eu e ao que lhe dá prazer. Procuro e encontro, incessantemente e humildemente perante a minha condição, algures entre o bem e o mal.

Muito umbigo bem vedado se vê por aí. O ego não esvazia... Incha com a matéria putrefacta de que se vai formando.