Saramago. E porquê? Dado o debate de hoje tão divulgado e o assunto já tão esmiúçado pelos media - há que alimentar os sensacionalismos deste nosso pequeno rectângulo, como a Judite de Sousa bem provou ontem -, gostaria de deixar uma singela opinião acerca do homem... Porque, afinal, ele com o que profere limita-se a ser mais um. A Maitê apenas se limitou a fazer o que nós, vergonhosamente, deixamos fazer.
Não vou criticar o Saramago. Nem me interessa, assim como não me interessa nem me preenche o que ele escreve. Alguns defendem que o senhor escreve mal - o que não deixa de ser algo verdadeiro -, mas tal revela-se tão válido como alguns blogues que teimam em existir por aí, que fazem uso de um português tão mau que me faz perguntar se será ainda a língua-mãe ensinada nas escolas, ou um dialecto extraterrestre qualquer, de uma civilização atrasada anos-luz.
O grande acontecimento aqui foi que o senhor ganhou, há uns anos, o Nobel. Recordo-me disso. Recordo-me também que, antes de tal feito, era o senhor mui mal amado pelas hostes, não apenas pelo facto de professar o comunismo como também pelas afirmações anti-católicas que fazia. Mas veio o Nobel, e foi um ver se te avias a comprar livros do Saramago, passear livros do Saramago, comer livros do Saramago. Até agora nada de especial, pois esta atitude é típica do português, ávido por alguns laivos de orgulho... Volta o Saramago de vez em quando a dar o ar da sua graça, e voltam com ele as suas frases já feitas, mormente ligadas à Igreja Católica, com livros em que aborda temáticas católicas. Nada de novo.
Não me incomoda a atitude niilista do senhor: incomoda-me sim a aspereza de ser que nele sempre existiu. Não me incomoda ele ser comunista, incomoda-me ele fazer tábua rasa do facto das pessoas necessitarem de acreditar. A Bíblia - que foi um dos meus principais manuais de estudo nos últimos meses - é, acima de tudo, um livro histórico, escrito por pessoas como ele, inseridas apenas num espaço e num tempo diferentes. Como tudo na existência humana, se o Deus da Bíblia é cruel como refere, nada mais é que a ideia que o homem de então fazia de Deus - porque Deus é, acima de tudo, a ideia que o homem faz do estado que o transcende, à sua imagem e semelhança: faço uma ideia de Deus - o Sem-Nome - porque nunca o vi, nunca o materializei visualmente; mas transporto-o para uma realidade que me é reconhecível, a humana. Torno-o humano como eu, aproximando-o - cruelmente bom. Era assim que pensava o homem da altura. Gostaria mesmo de ver o Sr. Saramago a explicar, como tão bem sabe - ou pensa - fazer, a sua visão limitada da existência humana a um homem que entendia a sua realidade como uma constante teofania: seria apedrejado em praça pública até à morte, claro está.
Pode criticar sim a Igreja Católica enquanto instituição que é, formada por homens que não deixam de ser iguais a ele. Sabido é que a Igreja cometeu várias atrocidades ao longo da História, mas também não deixa de ser verdade que foram os homens que as cometeram. Homens como o Saramago. Quem é ele para criticar o comportamento dos semelhantes, quando ele apenas se limita a corrobar, pelas suas palavras, as suas atitudes? É que Deus, materializado ou não, nada tem a ver com isto, pois é a Ideia... A Bíblia, antes de ser a Palavra que os homens determinaram, é História vista pelos olhos de um ser humano que procurava uma razão de e para existir. E isto, conceito simples, ainda não é compreendido, e muito menos sabido, por muita gente, que por aí opinam no total vazio de conhecimento.
O que realmente me incomoda, no Sr. Saramago, é olhá-lo e ver ali uma pessoa que, após viver toda uma vida, ainda não conseguiu compreender que a existência humana é feita de todo um conjunto variado de facetas, de seres. Que na sua pluralidade merecem - e devem - ser respeitados e compreendidos. O que me incomoda é ver ali uma pessoa que viveu toda uma vida fechada sobre si mesma. E penso: eu não quero ser assim. Absolutamente.
5 comentários:
Sabes escrever... :D Muito bom, sin senhora!
Com a breca, se este não é o melhor texto sobre este assunto que eu já li, então não sei o que é.
Isto está mesmo muito bom.
E não venhas dizer que não, camandro.
Para ambos,
Ok... Eu não vou dizer que não, mas vou tentar acreditar que sim... :D
;)
O principal problema do Saramago deve ser ele próprio. Não tenho paciência nenhuma para ele. Nem antes, nem durante, nem depois do "Nóbel".
Parabéns pelo texto. Gostei bastante.
LSO,
Ora, junta-te ao clube: só consegui chegar a meio de um livro do Saramago. Não tive coragem de gastar dinheiro num, pelo que o requisitei numa biblioteca pública. Como a conversa é sempre a mesma, os livros rondam o mesmo... E a paciência esvai-se, tens razão.
O senhor dá-me dó, com ou sem "Nóbel"... Essa é que é essa.
;)
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