sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Versus

Hoje recebi mais um email acerca da pseudo-polémica gerada à volta da Maitê Proença. E recebi um outro, da Livraria Bertrand, a divulgar o livro do autor contemplado com o prémio da Fundação Saramago. Ambos originaram por aqui um dilema: será que vale a pena pensar acerca disto? E o um-dó-li-tá irá contemplar qual?

Saramago. E porquê? Dado o debate de hoje tão divulgado e o assunto já tão esmiúçado pelos media - há que alimentar os sensacionalismos deste nosso pequeno rectângulo, como a Judite de Sousa bem provou ontem -, gostaria de deixar uma singela opinião acerca do homem... Porque, afinal, ele com o que profere limita-se a ser mais um. A Maitê apenas se limitou a fazer o que nós, vergonhosamente, deixamos fazer.

Não vou criticar o Saramago. Nem me interessa, assim como não me interessa nem me preenche o que ele escreve. Alguns defendem que o senhor escreve mal - o que não deixa de ser algo verdadeiro -, mas tal revela-se tão válido como alguns blogues que teimam em existir por aí, que fazem uso de um português tão mau que me faz perguntar se será ainda a língua-mãe ensinada nas escolas, ou um dialecto extraterrestre qualquer, de uma civilização atrasada anos-luz.

O grande acontecimento aqui foi que o senhor ganhou, há uns anos, o Nobel. Recordo-me disso. Recordo-me também que, antes de tal feito, era o senhor mui mal amado pelas hostes, não apenas pelo facto de professar o comunismo como também pelas afirmações anti-católicas que fazia. Mas veio o Nobel, e foi um ver se te avias a comprar livros do Saramago, passear livros do Saramago, comer livros do Saramago. Até agora nada de especial, pois esta atitude é típica do português, ávido por alguns laivos de orgulho... Volta o Saramago de vez em quando a dar o ar da sua graça, e voltam com ele as suas frases já feitas, mormente ligadas à Igreja Católica, com livros em que aborda temáticas católicas. Nada de novo.

Não me incomoda a atitude niilista do senhor: incomoda-me sim a aspereza de ser que nele sempre existiu. Não me incomoda ele ser comunista, incomoda-me ele fazer tábua rasa do facto das pessoas necessitarem de acreditar. A Bíblia - que foi um dos meus principais manuais de estudo nos últimos meses - é, acima de tudo, um livro histórico, escrito por pessoas como ele, inseridas apenas num espaço e num tempo diferentes. Como tudo na existência humana, se o Deus da Bíblia é cruel como refere, nada mais é que a ideia que o homem de então fazia de Deus - porque Deus é, acima de tudo, a ideia que o homem faz do estado que o transcende, à sua imagem e semelhança: faço uma ideia de Deus - o Sem-Nome - porque nunca o vi, nunca o materializei visualmente; mas transporto-o para uma realidade que me é reconhecível, a humana. Torno-o humano como eu, aproximando-o - cruelmente bom. Era assim que pensava o homem da altura. Gostaria mesmo de ver o Sr. Saramago a explicar, como tão bem sabe - ou pensa - fazer, a sua visão limitada da existência humana a um homem que entendia a sua realidade como uma constante teofania: seria apedrejado em praça pública até à morte, claro está.

Pode criticar sim a Igreja Católica enquanto instituição que é, formada por homens que não deixam de ser iguais a ele. Sabido é que a Igreja cometeu várias atrocidades ao longo da História, mas também não deixa de ser verdade que foram os homens que as cometeram. Homens como o Saramago. Quem é ele para criticar o comportamento dos semelhantes, quando ele apenas se limita a corrobar, pelas suas palavras, as suas atitudes? É que Deus, materializado ou não, nada tem a ver com isto, pois é a Ideia... A Bíblia, antes de ser a Palavra que os homens determinaram, é História vista pelos olhos de um ser humano que procurava uma razão de e para existir. E isto, conceito simples, ainda não é compreendido, e muito menos sabido, por muita gente, que por aí opinam no total vazio de conhecimento.

O que realmente me incomoda, no Sr. Saramago, é olhá-lo e ver ali uma pessoa que, após viver toda uma vida, ainda não conseguiu compreender que a existência humana é feita de todo um conjunto variado de facetas, de seres. Que na sua pluralidade merecem - e devem - ser respeitados e compreendidos. O que me incomoda é ver ali uma pessoa que viveu toda uma vida fechada sobre si mesma. E penso: eu não quero ser assim. Absolutamente.

5 comentários:

1REZ3 disse...

Sabes escrever... :D Muito bom, sin senhora!

João Cacelas disse...

Com a breca, se este não é o melhor texto sobre este assunto que eu já li, então não sei o que é.
Isto está mesmo muito bom.
E não venhas dizer que não, camandro.

Maria...ia disse...

Para ambos,

Ok... Eu não vou dizer que não, mas vou tentar acreditar que sim... :D

;)

LSO disse...

O principal problema do Saramago deve ser ele próprio. Não tenho paciência nenhuma para ele. Nem antes, nem durante, nem depois do "Nóbel".

Parabéns pelo texto. Gostei bastante.

Maria...ia disse...

LSO,

Ora, junta-te ao clube: só consegui chegar a meio de um livro do Saramago. Não tive coragem de gastar dinheiro num, pelo que o requisitei numa biblioteca pública. Como a conversa é sempre a mesma, os livros rondam o mesmo... E a paciência esvai-se, tens razão.
O senhor dá-me dó, com ou sem "Nóbel"... Essa é que é essa.

;)