domingo, 7 de setembro de 2008

Refeição Nua



Era um daqueles dias em que muito e nada havia para dizer... E se não fosse a Providência colocar um diálogo pelo caminho, certamente que hoje seria o dia em que o resultado seria o vazio.

Estava eu à conversa com o Colega Pato quando ele me disse que estava a ler, ou melhor, a reler Naked Lunch, de William Burroughs. "Epá, eu tenho esse livro!" e desloquei o meu olhar para a estante atafulhada de livros à procura da lombada... Encontrei Junky, do mesmo autor, mas do outro nada. "Se calhar emprestei-o e não devolveram"... É o costume! Mas, depois de muito remexer, lá o encontrei mesmo no final de uma pilha: "Aqui está!!", e respirei de alívio.

William Burroughs foi um personagem desconcertante... A sua história é a de um homem que "renasce" aos 45 anos, após 15 anos de droga e de maldição pelas sete partidas do mundo. Este livro, Naked Lunch - Refeição Nua, datado de 1959, descreve-nos a realidade angustiante e o desespero nas palavras de um junky alucinado pelo efeito da droga, corrompido moralmente pelo prazer de mais uma refeição. Nua e crua.

"Os junkies prudentes conhecidos pelo nome de esquilos, guardam a mercadoria no peito. De todas as vezes que me pico, há sempre umas gotas que escorrem pelo colete e endurecem a fazenda. Andava com um conta-gotas de plástico nos sapatos e um alfinete-de-ama no cinto. Sabem decerto a maneira de relatar esta história do alfinete e do conta-gotas: "Ela agarrou num alfinete-de-ama ensaguentado e ferrugento e abriu um buraco enorme na perna que ficou parecido com uma boca obscena e ulcerada à espera do diálogo com o conta-gotas que enfiou a perder de vista na ferida aberta. Contudo, a força terrível e galvânica da necessidade (a fome dos insectos em locais secos) faz com que o conta-gotas se partisse no mais fundo da carne dilacerada (assemelhando-se a um poste enterrado no solo). Mas que importância tem o pormenor para ela? Nem sequer se incomoda em tirar os vidros partidos e limita-se a olhar a carne ensaguentada com a expressão indiferente de um carniceiro. Que lhe importa afinal a bomba atómica, os percevejos, o cancro, a espera dos que pretendem recuperar o corpo delinquente... Bons sonhos Pantopon Rose."

Obscenamente real e frio... como um junky. Recomendo-o e acho-o indispensável.


Nota: O Colega Pato relatou casos de pessoas que se vomitaram durante a leitura dos primeiros capítulos do livro. Fiquem descansados, pois nem eu nem ele fazemos parte dos números.

2 comentários:

Anónimo disse...

Vá lá, fizeste uma boa escolha do trecho. Se bem que estava à espera de mais sangue, suor e...

(yellow) rubber duck

Maria...ia disse...

... E sexo?
Há que deixar transparecer uma certa sensibilidade... Noblesse oblige!

Beijos :D