quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Retrato II


© [2008] Maria Carmo Mendes


Devia ser isto que eu deveria fazer para "ganhar a vida". Mas não...

Uma encomenda que tive há uns meses atrás, a óleo. É o que a maioria das pessoas aprecia: ver o seu rosto, ou de alguém próximo, perpetuado através do traço e da mancha. Era capaz de ter sucesso, sim... Até que foi para isto que terei estudado. Mas não.

Gosto do olhar das pessoas, mas sentir o que está para lá de. O porquê do estímulo que me levou a olhar. Perceber. Num retrato "convencional" apenas me limito a captar a expressão desse olhar: porque se se conseguir captar e representar essa expressão, a imagem da pessoa está lá... Mas apenas isso. E não vou para além de. Não consigo.

Será isto que distingue, esta necessidade incessante de perceber, de transmutar, um pintor de todos os outros que se auto-intitulam porque, dizem, gostam de pintar (e a maior parte bem mal). Se eu tivesse apenas seguido a pintura pelo simples facto de gostar, seria agora arquitecta. Mas não...

Através da pintura compreendo a realidade que me envolve, compreendo o Outro e traço o caminho para chegar até ele. E uma relação íntima estabelece-se aqui: ao aperceber-me da sua existência transporto-o para dentro de mim, tornando-o parte integrante da minha realidade. Assimilo-o. Materializo a sua presença nas formas que crio. Compreendo-o mesmo que não me compreenda. Dou à luz o mundo interminavelmente. Como uma dádiva.

Sou pintora sim... E poderia apenas representar para ganhar a vida. Mas não.

4 comentários:

Anónimo disse...

Aposta no retrato... pensa na conta bancária do Lucien Freud! :)

Jrg

Maria...ia disse...

Ok... Então se assim é, quando me encomendas um :D?

Olha que o Lucien gostava de modelos sem roupa...

Beijos ;)

3dete3 disse...

Brutal...
Está muito bom mesmo... infelizmente nem tod@s podemos ganhar a vida a fazer o que mais gostamos... eu gostava que me pagassem para estar de férias...

lol

***

Maria...ia disse...

Dete, Dete... Foram assim tão boas :D?

Beijos ;)