sábado, 17 de janeiro de 2009

Morphine

Ontem foi um dia mau. Ou melhor, metade de mau.

Esperando eu ter uma reunião logo às 10.00h com o Master lá do sítio, fui por este literalmente arrastada para uma apresentação de uma exposição bibliográfica da Vieira da Silva... O que originou uma enorme frustração em quem tinha andado que nem uma louca tresloucada para conseguir chegar a horas.

Dei por mim numa sala semi-escura, rodeada de pseudo-intelectuais de toda a espécie. Como orador, o mui caro destas lides José-Augusto França, que discursava um texto hermético sobre a pintora, que a dada altura me fez pensar: "Eu quero uma injecção de morfina... Morfina... Morfina...". Tinha de alguma forma entreter a mente de um discurso que já ouço, e leio, há mais de uma década. Neste país quando se eleva alguém ao estatuto de coqueluche, prestam-lhe homenagem e vassalagem cegas sem sequer se questionarem. Pensam pequeno, mesmo muito pequeno.

Consegui escapulir-me no intervalo, já perto da hora de almoço. Finalmente livre, para pensar. Enquanto pintora, enquanto fazedora de, aquele discurso provocou-me asco. Como todos os discurso do género. Até na percepção da arte há necessidade de mudança. Sempre achei totalmente dispensável a palavra na apreensão do objecto. Sempre me recusei a falar, explicar o que fazia, porque a obra sente-se, não se explica. A palavra diminui qualquer obra, reduz o humano contido em a um conjunto limitado de significantes e significados. E nós somos muito mais que isso.

O recurso recorrente a metáforas linguísticas para explicar o objecto só o fecha sobre si mesmo. Sufoca-o. Torna a sua apreensão apenas possível a quem possui o dom (grande parte das vezes fingido) de descodificar um código de palavras sem nexo. Carregadas de um apaixonamento irracionalmente desmedido e inverosímil. A palavra chega a ser mais importante que o objecto em si - mesmo que este não valha nada, se alguma coqueluche disser que é um must, está tudo dito (algo muito vulgar no nosso país... Demasiado vulgar). Esta é uma e talvez a principal razão de ter deixado de me imiscuir no meio, porque não quero palavras. A arte parte do todo e é para o todo, e encontra-se hoje fechada no seio de uma elite que se mascara sob uma nuvem de pó de arroz.

Crio para tocar no outro, para o provocar. Para o obrigar a sentir, a sentir-se humano. A ver-se como um todo. E preciso pensar, pintar, escrever ainda mais... Para me salvaguardar de um dia chegar um chanfrado qualquer - já comigo depois de morta, é-lhe conveniente... -, com estes discursos do outro mundo. Vocês que lêem, os meus quadros, os meus gatafunhos, os meus apontamentos... Serão as minhas testemunhas.

Não é a crítica que faz a arte, mas a arte que se faz a si mesma viva, sem vogais nem consoantes.


Pronto... Admito. Foi um 1/3 de mau. Afinal não foi mauzinho de todo.

6 comentários:

Anónimo disse...

José Augusto-França é (e digo-o com todo o respeito que tenho por esta "entidade" da "teoria" da Arte em Portugal) de cortar os pulsos. Ou pelo menos dá vontade de. O meu professor de História de Arte é um discípulo assumido do senhor, foi aluno dele, é intimo dele e as aulas dele são uma coisa tão aborrecida, mas mesmo muito aborrecida. E as ideias...tudo muito visto, são as mesmas de há 20 e tal anos, tudo muito gasto...

Maria...ia disse...

Não diria cortar os pulsos... A morfina já aliviava!
Como disse, existem as coqueluches. E o que isto precisava mesmo era de uma reviravolta, tanto na História como na Teoria da Arte. Uma lufada de ar fresco. Como bem tento explicar, a obra não se explica com palavreados non sense: é claro que isso a torna elitista e só beneficia alguns - que se fartam de publicar livros sempre com o mesmo discurso!
Tenho esperança, no entanto... Estou a estudar para isso.

;)

P.S.: Se calhar o teu professor estaria lá...

Anónimo disse...

Muito possivelmente.
Também já frequentei as Belas Artes,Artes Plásticas, no Porto. No entanto, não gostei do ambiente e acabei por sair de lá sem concluir o curso.

Maria...ia disse...

Lisboa não tem ambiente diferente, garanto. Várias foram as vezes em que considerei abandonar o curso, mas resisti até ao fim... E contra tudo e contra todos, as minhas ideias vingaram e saí de lá com uns Parabéns e de cara levantada :D!

Artes Plásticas: Pintura ou Escultura?

;)

Anónimo disse...

Pintura. Nem tudo foi mau. Deu para adquirir conhecimentos. Enfim, aprende-se sempre algo nas experiências que fazemos.
PS: Disse Artes Plásticas porque no 1º ano do curso abordamos de tudo um pouco, pintura, escultura, web, vídeo, etc. Só no 2º ano é que se opta por uma área mais especifica.
Também sei como é em Lisboa, alguns amigos meus andam lá, mas nenhum em pintura.

Maria...ia disse...

Na altura em que lá andei, optávamos apenas no 3º ano, dado que a licenciatura era de 5 anitos. Os primeiros 2 anos eram dedicados às artes plásticas, com uns professores "artistas" da nossa praça, que tratavam os alunos com laivos de maldade pura: uma verdadeira segregação, e muitos ficaram pelo caminho. Por isso - e por mais razões - é que quando decidi continuar para um nível de estudos acima inscrevi-me noutra faculdade... Ainda não me arrependi.
Desde que terminei a licenciatura, só voltei à FBAUL uma vez... E a corja do costume por lá continuava, portanto presumo que o ambiente se mantenha, ou até tenha piorado.