Confesso que já não me lembrava dela. Julgo que a última vez que a proferi - ou pensei - estaria eu no final da minha adolescência... Em que o agora estava ainda tão longe e que o futuro me parecia algo impossível. Discurso algo depressivo, talvez, mas ainda penso que naquela altura fazia questão de insuflar algum dramatismo à ideia de um amor não correspondido: fazia tudo parte de uma certa teatralidade própria e necessária da idade.
A associação que fazia na altura entre o termo platónico e o amor não correspondido vejo, hoje, estar errada. Nada tem a ver. Até à data tenho-me, ocasionalmente, debruçado sobre esta temática, até porque o Amor também fundamenta o meu trabalho. Faço questão de agora - num momento em que tal me parece justificado e oportuno - partilhar a minha opinião sobre o assunto, resultado de algumas leituras e conclusões a que cheguei, ao longo deste tempo.
É vulgar associarem-se os termos platónico e impossível. A noção de Amor ideal defendida por Platão concebia este sentimento como algo puro na sua essência, ou seja, desprovido de paixões, estas por ele associadas à materialidade e falsidade. Estaria assim fundamentado na Virtude, e não em qualquer outro interesse físico. Com o tempo, foi o termo platónico - utilizado pela primeira vez por Marsilio Ficino, filósofo neoplatónico do séc. XV - erroneamente associado ao amor idealizado, em que o objecto seria o ser perfeito, imaculado. Ideia largamente explorada pela literatura - especialmente no período Romântico -, tornou-se sinónimo do amor inatingível, subjectivamente pleno pois não implicava o Outro, mas apenas a Ideia que se fazia dele. O Ideal personificado.
Ora, não era esta a ideia defendida por Platão. O Amor ideal seria aquele que buscaria o Belo, o qual apenas se poderia encontrar na Virtude. E a Virtude platónica assentava na beleza do carácter e na inteligência do Outro, e não em ideais. Contudo, a expressão "amor platónico" que hoje vulgarmente se usa reflecte o que é mau no ser humano: o egoísmo, o medo, a infelicidade, o sofrimento. E é um dos limites da solidão. Porque não se consegue alienar do Desejo.
Infelizmente, hoje a ideia de Amor não se concebe sem Desejo. Há que possuir o Outro, e isso tornou-se no objectivo. Apenas se conhece, não se compreende. A pessoa é vista como um objecto, e a consumação do Desejo como o fim a atingir. O sentimento que deveria ser baseado na Virtude platónica é toldado pelo que é meramente material e fugaz, realização do prazer momentâneo e imediato. E esquece-se que a pessoa se manifesta pelo que é, enquanto ser em si. Quando me falaram em platónico, apenas uma palavra me veio à mente: egoísmo. E eu esse platónico não o sinto, não na perspectiva que defendi anteriormente. Porque acredito que amar o outro - pelo que é - é ainda possível. E que isto nada tem de irrealizável. Apenas há que olhar para lá de nós mesmos. E o Desejo será, afinal, apenas e somente o reflexo.
Nada de ideais.
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