domingo, 25 de janeiro de 2009

Miroir

“Um raio de luz atravessa-me a alma: preciso de companheiros, mas vivos, e não de companheiros mortos e cadáveres, que levo para onde quero.

Preciso de companheiros, mas vivos, que me sigam — porque desejem seguir-se a si mesmos — para onde quer que eu vá.

Um raio de luz atravessa-me a alma: não é à multidão que Zaratustra deve falar, mas a companheiros! Zaratustra não deve ser pastor e cão de um rebanho!

Para apartar muitos do rebanho, foi para isso que vim. O povo e o rebanho irritam-se comigo. Zaratustra quer ser acoimado de ladrão pelos pastores.

Eu digo pastores, mas eles a si mesmos se chamam os fiéis da verdadeira crença!

Vede os bons e os justos! A quem odeiam mais? A quem lhes despedaça as tábuas de valores, ao infractor, ao destruidor. É este, porém, o criador.

O criador procura companheiros, não procura cadáveres, rebanhos, nem crentes; procura colaboradores que inscrevam valores novos ou tábuas novas.

O criador procura companheiros para seguir com ele; porque tudo está maduro para a ceifa. Faltam-lhe, porém, as cem foices, e por isso arranca espigas, contrariado.

Companheiros que saibam afiar as suas foices, eis o que procura o criador. Chamar-lhes-ão destruidores e desprezadores do bem e do mal, mas eles hão-de ceifar e descansar.

Colaboradores que ceifem e descansem com ele, eis o que busca Zaratustra. Que se importa ele com rebanhos, pastores e cadáveres?

E tu, primeiro companheiro meu, descansa em paz! Enterrei-te bem, na tua árvore oca, deixo-te bem defendido dos lobos.

Separo-me, porém, de ti; já passou o tempo. Entre duas auroras me iluminou uma nova verdade.

Não devo ser pastor nem coveiro. Nunca mais tornarei a falar ao povo; pela última vez falei com um morto.

Quero unir-me aos criadores, aos que colhem e se divertem; mostrar-lhes-ei o arco-íris e todas as escadas que levam ao Super-homem.

Entoarei o meu cântico aos solitários e aos que se encontram juntos na solidão; e a quem quer que tenha ouvidos para as coisas inauditas confranger-lhe-ei o coração com a minha ventura.

Caminho para o meu fim; sigo o meu caminho; saltarei por cima dos negligentes e dos retardados. Desta maneira será a minha marcha o seu fim!”


Assim falava Zaratustra
Friedrich Nietzsche


Ontem recebi, num post que aqui alguém bem-aventurada deixou, o maior elogio, em três palavras: diferente, solto e inteligente.

Quando decidi iniciar este blogue, queria mesmo diferenciar-me, ou seja, não queria falar de mim. Já vivemos numa sociedade que cultiva a solidão e eu não queria prestar culto ao individualismo centrando-me no Eu. E a minha vida pessoal, sentimental, whatever... É demasiado enfadonha para eu perder o meu tempo a reflectir acerca. Nem tenho a mínima vontade de encher a blogosfera com disparates. Já chega o que leio e observo.

A dificuldade enorme que tenho em expressar-me oralmente acerca da forma que procuro prolongar-me para o Outro tenho-a, aos poucos, passado para aqui. Com a escrita sempre foi diferente. Necessito de me confrontar com ele, para me descobrir e conhecer-me. Porque o ser humano pensa-se e toma consciência de si através de. Não tendo isso presente, falar de mim, sobre mim, seria estar a falar numa mentira. E eu existo, caraças.

Falo aqui do que sinto, e que sei que todos os que por aqui passam sentem: porque vivemos no mundo do faz-de-conta. E nesse sentir é que está o verdadeiro Eu, aquele Eu que se revê no Outro, que existe nele e para ele - os companheiros de Zaratustra. O Eu que não quer estar sozinho. Nunca.

É este o meu reflexo.


Nota: Escusado será dizer que este é mais um dos livros da minha vida.

2 comentários:

Anónimo disse...

Da tua e da minha;)

K&H
Dark Moon

Maria...ia disse...

Não há nada melhor que uma camaradagem nietzscheana...

;)