sexta-feira, 3 de julho de 2009

Mistake?

"Megan Meier, de 13 anos, era uma adolescente americana com problemas de auto-estima e medicada com antidepressivos. O fim da sua relação com “Josh”, o rapaz com o qual se relacionava virtualmente há várias semanas na rede social MySpace foi a gota de água. A jovem enforcou-se nesse mesmo dia, no armário do seu quarto. O caso, que remonta a 2006, seria apenas trágico, se não fosse também um processo judicial. É que afinal “Josh” era uma mulher de 49 anos que foi ontem ilibada de todas as acusações. O juiz reverteu uma anterior sentença, que a tinha considerada culpada de três delitos menores, depois de um júri a ter inocentado da acusação de conspiração criminosa.

O caso fez correr rios de tinta em todo o mundo. Em 2006, numa pequena localidade do estado do Missouri chamada Darden Priar, Megan Meier começou a interagir virtualmente com um jovem que dava pelo nome de Josh Evans. Ao cabo de cinco semanas de relacionamento, o alegado jovem disse que queria cortar o contacto com Meier, escrevendo-lhe mensagens cruéis como “o mundo seria um lugar melhor sem ti”.

Psicologicamente instável, a adolescente cometeu suicídio. Pouco depois da sua morte, a conta de Josh Evans foi apagada mas a verdade não tardou, porém, a vir ao de cima. Josh Evans era afinal a vizinha Lori Drew, de 49 anos, uma bem sucedida empresária e mãe de uma adolescente que era colega da própria Meier. O grau de envolvimento de Drew em todo o caso nunca ficou totalmente esclarecido. Segundo a própria, a falsa identidade no MySpace foi criada pela filha e por uma funcionária da sua empresa caseira, sem que ela tenha intervindo. Nunca ficou claro se a mulher teve uma participação activa nas mensagens trocadas entre "Josh" e Megan, se estava a par da "brincadeira" e sancionou a situação, ou se tinha apenas uma vaga ideia do que se passava.

Ainda assim, Drew foi levada a tribunal por um crime de conspiração criminosa e três acusações de acesso ilegal a informação armazenada em computadores - ou seja, a informação da adolescente disponibilizada no site MySpace. Criar uma conta fictícia no MySpace viola as regras de utilização, que qualquer utilizador tem de aceitar para se inscrever. Ao introduzir dados falsos, argumenta a acusação, Drew acedeu ilegalmente à informação existente no site.

Pelos três crimes menores, Drew foi considerada culpada em Novembro passado, faltando ao júri californiano (estado onde decorria o julgamento, uma vez que o MySpace tem aí sede) pronunciar-se acerca da acusação de conspiração criminosa. A sentença saiu finalmente: Drew foi absolvida. E por causa disso, o juiz George Wu anunciou agora que irá regovar a anterior condenação da americana, agora com 50 anos, que poderia cumprir um ano de prisão e pagar mil euros de multa.

Wu indicou estar preocupado com o facto de este caso poder abrir um perigoso precedente. Se Drew fosse condenada por quebrar os termos e as condições de uso de um site de Internet, “poder-se-ia perseguir basicamente todas as pessoas que já tenham violado as condições de uso” de uma rede social, alegou Wu.

Já há um mês que o mesmo juiz tinha indicado que estava a considerar os argumentos da defesa, que pediam que o veredicto de Novembro fosse revisto, já que considerava “estranha” a aplicação das leis contra o crime informático neste caso, uma vez que não há legislação específica a ser aplicada a este caso.

“Será delito uma conduta que é levada a cabo todos os dias por milhões de pessoas?”, questionou publicamente o juiz. “Se as pessoas lêem as condições de uso e ainda assim dizem que têm 40 anos em vez de 45, isso é um delito?”.

“O único propósito neste caso é converter Lori Drew num símbolo público do ciberbullying (acosso via Internet)”, tinha indicado igualmente um dos advogados da mulher, segundo a BBC."

In Público.pt, 03-07-09.


Caso para dizer: a culpa morre sempre solteira. No entanto julgo que este será mais um caso para reflectir - não assentando apenas no facto de ser uma instável adolescente - quem não o foi? -, mas no sentido de analisar até que ponto as relações virtuais poderão afectar a nossa estabilidade emocional e psicológica, isto para todas as faixas etárias que deambulam por aí: quem se esconde para lá do pano? MySpace's, Hi5's, Facebooks... And so on.


"Para a disputa, Zeuxis pintou um cacho de uvas. Quando mostrou o quadro, dois passarinhos imediatamente tentaram picar as mesmas. Zeuxis então pediu que Parrásios desembrulhasse o seu quadro. Este então revelou que na verdade era a pintura que simulava a embalagem do quadro. Zeuxis imediatamente reconheceu a superioridade de Parrásios, pois se tinha enganado os olhos dos passarinhos, este tinha enganado os olhos de um artista".

Plínio, o Velho.


Atrevo-me a incluir o Blogger.

3 comentários:

Ana disse...

Olá linda,
tudo bem?
Com uma filha de 9 anos em casa é caso para me preocupar com estes aspectos, cada vez têm acesso mais cedo às novas tecnologias, claro que neste momento da vida dela, nós ainda temos controlo sobre aquilo que ela consulta, mas nem sempre será assim...
Vemos que quem está mais próximo de nós é quem nos dá mais dissabores, conhecendo-nos e influenciando-nos...
Doente está quem fez o que fez, não a criança que se suicidou pela mágoa que lhe causaram...
Pessoas dessas deveriam ser condenadas de forma a que mais ninguém tivesse sequer a ideia de fazê-lo novamente.
Beijinhos

Maria...ia disse...

Ana!

Essas férias devem ter sido um must... Não ;)?

Bem, eu falo por mim, que tenho uma sobrinha teenager a quem tenho de pôr travão (falo pelos cabelos brancos que a adolescência dela me oferece):D. Acho que, neste caso e antes de avaliar a hedionda atitude da senhora que se "mascarou", devemos medir o conceito de "relação". Que tipo de relações são estas que se estabelecem nas redes sociais? Até que ponto a "ausência" se torna "presença" e nos afecta? Será comodismo, solidão, irrealidade, curiosidade? Vivemos a cultura da negação?

Acho que foquei alguns dos factores que dão pano para mangas: na internet a realidade atinge os seus extremos, e muitas vezes imiscuído nela o nosso eu desequilibra-se. Para o bem e para o mal. Algo que tento SEMPRE transmitir à minha sobrinha - e que sei que transmites à filhota.

Quanto à dita senhora: é uma vergonha que não tornem este caso um exemplo de justiça. O seu acto tresloucado provocou a morte, e sai impune. Julgo que se o final fosse outro, certamente que os que usam "false identity" nas redes pensariam duas vezes. Agora vai ser um ver se te avias... Desequilibrados aos montes por aí - porque é isso que a senhora é.

;)

Coolimero disse...

Este fenómeno não sendo novo, é ainda muito recente para que as pessoas se habituem a lidar socialmente com esta nova forma de comunicação.
Cada vez se prescinde mais do contacto directo para o refúgio fácil nas novas formas de comunicação, ao ponto de quase deixarmos de olhar uns para os outros na rua para nos falarmos por satélite.
O facto é que nestes meios acabam por se criar laços consideráveis entre as pessoas e chega-se ao paradoxo de termos inúmeros amigos desconhecidos por aí… e muitas vezes, ninguém por perto.
Em algumas circunstâncias é mais simples expor os nossos males a estranhos, pelo que acaba por se gerar uma cumplicidade e mesmo dependência. Falta no entanto o factor de interactividade directa que confere às relações reais a consistência desejável.
Tornando-se quase impossível julgar todas as demências e perversidades que deambulam pela Web , torna-se assim essencial educar as pessoas para que mais facilmente se lide com esta nova realidade. E se considerarmos a vulnerabilidade dos adolescentes, mais redobrados têm que ser os valores a incutir.