
Num país onde tanta gente se auto-intitula culta, é engraçado constatar que tal não passa de uma atitude cool e não de intervenção perante o que está mal... E que vai cada vez pior.
Este tecto que vos mostro - parcialmente - está numa capela despojada de tudo o que outrora a fazia, é certo, bastante especial. Quando este edifício foi comprado pelo actual proprietário, logo após o 25 de Abril de 74, já se encontrava vazia e, pelo que me disseram, em estado deplorável. Salvo a cal que já aplicaram nas paredes, nada mais foi feito na sua recuperação, pois as entidades competentes não disponibilizam verbas para tal. Este exemplo, pelas suas características - representa uma arquitectura fingida, algo que nunca vi por estes lados e com este modelo - ainda apresenta a camada cromática original, mas urge de um restauro, não apenas pelo facto de já se terem perdido algumas tábuas, mas também pelas infiltrações de humidade, pois embora a excelente madeira de carvalho resista - ah, sábios antigos! -, a água e o desleixo conseguem ser potenciais e vencedores inimigos.
A Cooltura deste nosso pequeno país vê-se em estatísticas de visitas a museus, demonstra-se num livro que se passeia ou que se lê no metro, reflecte-se na compra do Expresso ao sábado: imagem de cérebros comprimidos, utensílios que estão na moda. Indivíduos de ar snob e gestos intelectualizantes, ensaiados num qualquer gabinete, fazem questão de dominar as massas incutindo esses modelos que em nada respeitam a identidade da pessoa e do nosso povo. O povo genuíno que se reflecte nestes pedaços de histórias que se vão esquecendo, perdendo na memória. Perde-se a identidade, perde-se a memória, destrói-se a cultura. Mas neste país está-se bem.
Cool.
14 comentários:
Ainda se isso fosse um "poço" daqueles que há medida que se vão enchendo se vai descobrindo que é mais fundo do que originalmente se pensava... Ou se o proprietário tivesse por apelido Coelho ou Loureiro e afins... Isso era cool! E talvez entrassem umas ajudas. Agora assim... Jamais! (en français)
PS: Sorry, é tarde, estou cansado e desinspirado. Tentei...
E este é só um dos muitos exemplos do abandono em que a cultura menos cool do nosso país se encontra.
Porquê? Porque restaurar o nosso passado não dá votos e vai retirar verbas às acções mais mediáticas e que, por sua vez, são noticiadas nos "expressos".
E quando os donos, mesmo quando esse dono é o Estado, não têm dinheiro para os restauros da nossa história (que é no fundo a alma de um povo) verdadeiras obras de arte vão-se desfazendo no tempo.
Esta capela é visitável pelo público?
e enquanto isso os Shoopings rebentam pelas costuras até em belos dias de sol...
Resposta aos 3 post's:
DD, como se sabe neste país quem tem os contactos certos consegue mover montanhas... E rios de dinheiro! Enquanto nós, como povo, nos mantivermos serenamente a assistir a esta hecatombe de valores - morais, culturais, whatever -, vamos "morrendo" aos poucos, atolados no chiqueiro que outros encheram...
Guinevere, infelizmente são mesmos muitos, e cresce em mim um sentimento de revolta perante tais atrocidades.
Cada vez mais nos reduzimos a números: é bem mais satisfatório para mentes pequeninas encher aviões e tgv's com turistas que se vêm estender ao sol nos empreendimentos turísticos e encher os bolsos com isso, do que enriquecer a "alma" de um povo: esta nossa alma já moribunda.
Esta capela não está visitável ao público; no entanto pode-se requerer visita. Eu tive a sorte de ser convidada a ver... Sabia da existência da capela, mas não do tecto.
Bê, isso é algo que me faz bastante confusão... Como vivo numa aldeia - ainda e felizmente - rodeada de verde, não percebo como é que as pessoas se enclausuram horas a fio num shopping, literalmente e nos tempos que correm a "babarem-se" para as montras.
Ontem fui por obrigação a um, para comprar um livro que tenho de ler... E ao passar pela zona da restauração dei por mim estupefacta com grupos de pessoas idosas, a tomar o seu café após o almoço, e ali se mantinham à conversa. Num shopping. Com tantas esplanadas que há por aí. O ser humano cada vez mais prefere viver em clausura, rodeado de betão.
Para os três: ;)
"é bem mais satisfatório para mentes pequeninas encher aviões e tgv's" Desculpa mas tenho que comentar. ENCHER? Achas mesmo que sim? Só se for encher os bolsos e egos de alguns e vazar (ainda mais) os bolsos de outros...
Estatísticas... É do que hoje vivemos! E de políticas de "enchimento" de bolsos em vez de cérebros...
;)
Confesso que sou pouco..pronto ok ok, muito pouco culto.
É extremamente difícil verem-me ler um livro, porém quando o leio e nada mais aparece para fazer, leio (quase de uma acentada :P).
Ir a um museu, a uma exposição...mto raramente vou.
Nem ao cinema tenho ido, vejo o que posso e consigo em casa.
A minha mais recente acção cultural foi a audição de uma opereta no Teatro José Lúcio da Silva em Leiria, não tenho presente comigo o bilhete de entrada, mas gostei bastante do que ouvi :)
Chamem-me o que quiserem. Não sou o mais culto, não sou. Já fui mais. Já fui a exposições, a museus, já li mais livros (tudo durante as visitas de estudo da escolinha preparatória e secundária).
Porque não vou mais se até gosto de ver/apreciar monumentos?
Porque nem sempre vou para fora do país. Porque cá dentro todo o tempo o tenho bastante ocupado, pois prefiro visitar amigos, pois prefiro ir trabalhar o meu cavalo, pois ir com os meus pais a todo o lado já não é o que era, pois ...
Não quer dizer que não haja espaço na minha vida para ser um pouco mais culto. Mas não tenho esse hábito. E não o irei ganhar sozinho. Quem sabe um dia... :)
Mas e daí? Vou conhecendo todo Portugal aos poucos, com amigos que vou criando. Vou visitando novos lugares, conhecendo novas pessoas. Não será isso também cultura?!
P.S.: Do governo..nem falo!
Quando me refiro a cultura falo em identidade. O ser-se culto não se quantifica pelo número de livros que se lê, ou pelas estatísticas de acesso a um museu. Absolutamente. O ser-se culto assenta no facto de nos consciencializarmos do que somos, enquanto pessoas e memória.
Enquanto estudante de pintura não me apercebia do quanto a arte enquanto reflexo de toda uma
memória colectiva estava maltratada. Agora que gradualmente acordo para tudo o resto tomo consciência de que existe uma idolatria da personnage, do número, e não da pessoa e da sua acção no tempo.
Há que lutar, há que intervir para que esta memória não seja menosprezada e para que não nos tornem em seres sem passado nem futuro, com uma existência limitada ao "agora".
O conheceres Portugal, amigos novos e tal, é enriquecimento pessoal limitado à tua memória, que provavelmente morrerá contigo se nada fizeres para a preservar. E é este o princípio que rege a preservação da arte, na história: se não intervirmos, se não deixarmos ser ser autómatos de um sistema qualquer (não estou com isto a ser anárquica), tudo o que já está morto assim ficará. A cultura, assim como a memória, é constituída por peças que se entrelaçam e que constroem todo um discurso, toda uma personalidade, toda uma identidade: são estas as pedras basilares do ser enquanto culto, inserido na cultura que o reconhece enquanto tal.
O que está nos museus já está "morto"... Agora o trabalho é dar vida ao que ainda está cá fora. Desde que saibas olhar, e acima de tudo, pensar isto... És culto.
;)
Custa-me ver a maioria do nosso património fora de Lisboa, Porto e Coimbra e claro o excelente exemplo de Chaves, a perder tanto do nosso passado.
Acho que me agrada mais o método Alemão de vender património cultural imobiliário, mantendo vistorias e onde o proprietário se compromete e é fiscalizado a restaurar, manter e não alterar a fachada ou partes previamente acordadas dos interiores.
É certo que a população fica privada de os visitar, mas mais vale isso do que perder parte do nosso passado.
Tal ideia seria realmente boa, se nos gabinetes estivessem pessoas capazes de tais vistorias... Muitos - a maior parte - nem sabe distinguir um arco de volta perfeita de um arco em ogiva, quanto mais procederem a uma qualquer avaliação. A página do IGESPAR, IPPAR, DGEMN, whatever (mudam os nomes mas eles não se decidem), é de doer o coração com erros imperdoáveis!
É ideia do Ministério da Cultura obrigar as empresas de obras públicas ao efectuarem trabalhos para o Estado a injectarem 1% do valor dos ganhos na recuperação do Património... Com o que vemos por aí, é bem provável que mais dia menos dia e se tal acontecer, ou nada fica feito - pois vivemos num país muito dado à teoria, em que se criam grupos de estudo da situação por tudo e por nada, e que levam o dinheiro todo - ou então assistiremos a uma miscelânea de granito e betão, pois o português vive muito bem com o kitsch. E, aliás, a percentagem de 1% é ofensiva...
O alemão tem consciência da sua identidade, pelas várias vicissitudes da História. O português - não sei se por ser uma mistura de vários povos... - ainda anda para aqui a bater com a cabeça nas paredes, mais retrógado que há 800 anos atrás...
;)
P.S.: Espero que o comentário não tenha sido por simpatia...
Não se percebe muito bem, e eu sou pitosga, mas as cartelas tem figuras de santos, Virgem com Menino, etc?
Que tal pensares em fazer uma recolha sistemática do património a morrer, da tua cidade/região? Dava para uns artigos, se calhar até bem acompanhada, cientificamente falando!
Geomonumento saltitão
Saltitão :D
É claro que já tinha pensado nisso... Mas, como sabes, até as ideias se têm que manter, por aqui, no segredo dos deuses... E sim, tem duas cartelas, uma com uma santa - não é Sta. Teresa d'Ávila - e outra com a Virgem e o Menino. Mas o mais engraçado é existirem macacos - a sério! - pelo meio. Depois mostro fotos!
;)
P.S.: A "companhia" científica é tão boa :D
Macacaria? Hum.. é curioso. Alguns têxteis da época (litúrgicos e para-liturg.), especialmente os orientais, têm muitos macacos e pássaros.
Influência oriental?
Marco (Miliário) reboludo
Mas que bela informação que me deste, colega! Tem pássaros também, e tem tudo a ver... Em princípio!
Vamos ter conversa acerca do assunto...
;)
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