Claro que só a mim... Hoje a minha tarde foi passada na demanda de umas fotografias de umas telas existentes numa capela de uma aldeia atrás de serra (e quando falo "atrás de serra" é mesmo lá atrás), numa daquelas em que a estrada acaba ali e não se vislumbra nada mais dali para a frente.
Ora, chegada lá e sob um sol abrasador, não se via viva alma. Até que lá encontrei um grupo de senhoras de idade debaixo da soleira de uma porta. Mui cordialmente, lá expliquei ao que ia... Ninguém sabia quem seria o/a responsável pela abertura da capela. Depressa a notícia se espalhou POR TODA A ALDEIA - "a menina quer fazer um trabalho para a escola!" - e vi-me rodeada por grande parte da população, que por curiosidade e desconfiança perguntavam o que é que andaria eu para ali a fazer. Senti-me enfiada num cenário quase medieval, dadas as expressões das gentes. Lá uma jovem - que entretanto apareceu do "fundo do povo" (sim, no espaço de poucos minutos a notícia tinha chegado lá) - se prontificou a ir a casa de uma prima, que provavelmente teria a chave. Ida e volta, a senhora prima recusou-se a disponibilizar a chave... Porque a dita capela tinha sido recentemente assaltada e levaram o ouro todo da santa. Sim, deixaram a porta da capela entreaberta e o interior bem recheado... E eu perguntei-me se tinha cara de larápia. O sacristão, que alguém disse que também teria a chave, estava agarrado à enxada nas terras, "à Eira". Finalmente, alguém se lembrou do presidente da junta de freguesia, que estaria algures a montar o palco para o arraial do próximo fim-de-semana. O palco estava lá, o presidente é que não. E onde é que eu o fui encontrar, hum? Sim, na pipa mais próxima: uma pausa bem regada. Lá repeti a lenga-lenga e o senhor, que de repente se mostrou muito apressado, disse que só falando com o padre... Que tem residência a 15 Km da aldeia, e que só ali ia dar missa aos domingos. No caminho de volta, ainda procurei e encontrei a dita residência do padre... Sem padre (segundo consegui apurar, só vai a casa para dormir). Resumindo: se quero as fotos, lá terei que fazer outra vez 40Km (80 ao todo) e gramar com um arraial. Que as pessoas sejam desconfiadas (descuidadas, é essa a verdade) até que compreendo... Agora eu não tenho mau aspecto, caraças.
Com o meu ego de rastos, de mãos a abanar e com umas sardas a mais... Eis o resultado do que dá querer fazer algo por este país: os larápios, está visto, é que ficam sempre a ganhar.
13 comentários:
Parece a cena de um filme Maria...que coisa! Percebo que as pessoas sejam cuidadosas, mas isso é ir ao extremo! Aconselha-se por isso uma música bem alegre, nada de pancadas contra a parede ;)
Eu ainda dei por mim a pensar se a água que tinha bebido entretanto não seria alguma poção que me tinha feito viajar no tempo... Completamente surreal! Já me estou a ver é a "curtir" a música do organista que vai animar o arraial... Isso é que vai ser uma festa, com os últimos hit's da pimbalhada :D!
;)
Oi, olha que o quadro que tens na parede não é nenhuma obra é uma conjugação de guardanapo com a tentativa de pintar uma tela toda de preto ;-).
então onde tu andaste moça? foste para onde judas perdeu as botas? lembra-te que não é só nas aldeolas que existem contratempos... já te estou a ver em pleno arraial, a curtir as musicas do Quim Barreiros ou do Toy, de copo e cigarrito na mão a curtir o som, à espera de alguém já totalmente bebado que te desse a chaves da igreja para tirares as fotos, em seguida deixarias as chaves junto a esse alguém, porque a essa hora já estaria ao "luar da porta" à espera de alguma alma caridosa o deixasse em sua casa,que neste caso talvez fosses tu; desculpa, mas seria divertido ;). Se quiseres companhia diz que eu vou contigo... Já sinto a falta de umas festas de aldeia, já sinto saudades das festas de s. jorge...
Muitos beijinhos e não desesperes!! eu estou sempre aqui para te ajudar
um dia em cheio n? :)
Bem, festarolas de aldeia é comigo mesma. Vivi numa durante 3 anos e era ver as senhoras e as meninas de roupinha de casamento para irem ver o Rancho Folclórico ou para o bailarico de final de dia. Muito booommmm!!!
Quanto à tua aventura... Quem disse que os portugueses são um povo simpático e acolhedor???
sardas e´ fixe
Ana!
Bem... Fizeste o filme todo :D! Realmente, fui para o lugar onde o Judas "perdeu as botas"! Ando a ver se me escapo ao arraial... :D
Quanto ao quadro... Não sejas tão modesta ;)
Beijo gande!
;)
Ricardo,
Pois, um daqueles dias "em cheio", que de cheio não teve nada :D!
Obrigada pela visita.
;)
Guinevere,
Ai, as festas da aldeia :D! Daqui a pouco estão a começar as sagas das festas por aqui... Chega o mês de Agosto e temos festas todos os dias, é um "ver se te avias" :D! Também falo por experiência própria... ;)
O povo português não é simpático, não é acolhedor... Mas mais grave é ser atrasado.
;)
Capelão,
Fixe para ti que não as tens!
Anda desaparecido...
;)
Bem-vinda ao Portugal real. E mais não digo.
A palavra deste comentário é "ovenoi" e sendo que muitas vezes também me sinto uma espécie de "alien", também se identifica comigo.
Dá mesmo gosto ler um blogue que alia textos muito bons a palavras de verificação também muito boas, mas os textos são melhores. ;)
Foi bem real, João... Tipo um filme do David Linch :D
Eu bem que queria um "ovenoi" para ir para bem longe daqui... Mantenho acesa a esperança de que a "vida inteligente" existe algures por aí ;)... Ok, e eu vou tentar acreditar que os textos são mesmo bons (sempre posso começar um blogue "à gaja", com coisas "de gaja"... Era um ver se te avias :D)
;)
Olá Maria.
"Aterrei" aqui por acaso e permite-me que te dê uma dica. Sou da Covilhã e o meu trabalho leva-me muitas vezes a paraísos perdidos no meio da serra, o segredo para conseguires alcançar os teus objectivos estiveram na tua mão e deixaste escapar... Bastava beberes um copo com o presidente da junta e o homem deixava-te fotografar tudo e mais alguma coisa. Por vezes é necessário a linguagem do alcool... lol. Boa sorte e bom trabalho.
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